''(...) poderia ser o início de um 'tudo' ou apenas a continuação de uma série de 'nadas'"

fonte: Zenda


 Pegou seu vestido que era praticamente um uniforme para ir a encontros amorosos. Ele tinha a perfeita mistura de sexy e romântico que ela gostava, um decote na medida certa, valorizava o corpo sem ser justo ou vulgar e tinha uma cor que favorecia o tom castanho-ruivo de seus cabelos. 

Vestia-se de frente para o espelho, mas sem olhar para seu reflexo. Quando finalmente se olhou, para fazer a maquiagem, reparou que seus olhos ainda estavam inchados do choro que lhe transbordara algumas horas antes. “Droga!” soltou em tom baixo e correu para o congelador da geladeira buscar a colher que deixava lá para tirar o inchaço dos olhos ao acordar. 

Naquele dia, não estava afim de vestir-se da “garota interessante, bem-humorada e encantadoramente sexy e inteligente”, queria apenas vestir-se de si e chorar caso lhe desse na telha. 

Pensou em desmarcar e pegou o celular. Faltava bem menos de 1h para encontrar com o rapaz com quem já desmarcara outras tantas vezes. “Vou me atrasar um pouco” digitou e enviou sem esperar por uma resposta, mas enquanto colocava o celular dentro da bolsa em cima da cama, a tela acendeu com a mensagem do rapaz: ''Sem problemas! Estou a caminho'' 

Parou por um momento se encarando no espelho. Pensou em inventar uma desculpa, afinal ele poderia estar perto de casa e conseguisse voltar. Mas ao invés disso, insistiu em terminar de aplicar o corretivo nos olhos avermelhados e mostrar o melhor de sua coordenação motora em um perfeito - ou quase- delineado suave. Feito. Passou então, seu perfume predileto e saiu de casa. Não se importou nem em pentear os cabelos, só os prendeu em um coque displicente no topo da cabeça enquanto aguardava o elevador, deixando alguns fios soltos na nuca. 

Iriam se encontrar não muito longe de sua casa e quando chegou à beira das escadas do metrô, hesitou por 1 segundo. Decidiu ir à pé e talvez se atrasasse ainda mais, mas por fim se convenceu de que mesmo quando chegasse ao café e não tivesse ninguém aguardando por ela, ficaria bem pois carregava seu romance favorito de Jane Austen na bolsa.

Entrou um tanto desajeitada tentando tirar a jaqueta jeans que vestira por cima às pressas e agora, após a caminhada que a fizera sentir calor, tentava tirar antes que o suor escorresse na testas e parecesse mais desleixada que gostaria de aparentar. Ele já estava lá à espera e levantou o olhar casualmente - e levemente esperançoso - para a porta quando ela entrou. Mantinha um livro sendo pressionado contra a mesa com uma das mãos e a outra brincava com a alça da xícara de seu café expresso. Sorriram um para o outro e a troca foi calorosa. Familiar.

Ao chegar à mesa, Ela que já havia se convencido de que iria aproveitar o restante da tarde sozinha, sentia-se quase como quem é pego de surpresa. Se cumprimentaram com beijos nas bochechas e sentaram-se um de frente para ao outro. Ele, que mantinha a mão marcando a página do livro, tirou-a dali e o fechou. O olhar dela recaiu sobre a capa: Ele lia Jane Austen. Um exemplar um pouco mais surrado do mesmo romance que ela carregava em sua bolsa naquele dia. Enrubesceu.  

Passaram o restante da tarde ali naquele café/livraria, trocando impressões sobre a vida, experiências, preferências por sabores de chá, cantores e autores favoritos... Era o primeiro encontro dos dois, mas parecia um reencontro de corações antes desesperançosos. 

Quando saíram, já era noite e resolveram estender o papo e a companhia um do outro ali para a Mureta da Urca, porém afastados dos turistas e das pessoas animadas e espalhafatosas demais. Estava uma linda noite de inverno carioca e a lua - quase cheia - brilhava refletida na água. E foi, embalado pelo vento salgado e gelado, que tornou-se impossível adiar que ambos os lábios se encontrassem e se transformassem em um beijo tenro e carinhoso. 

O tempo pareceu desacelerar e ao redor, tudo e todos pareciam ter reduzidos seus barulhos à sussurros para não atrapalhar. Se olharam nos olhos sorrindo e perceberam que ali poderia ser o início de um “tudo” ou apenas a continuação de uma série de “nadas”, mas que cada momento compartilhado valeria a pena.


Por: Letícia O.

02/10/2020


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